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  • O ACIDENTE VASCULAR CEREBRAL ISQUÊMICO (AVCI)

    No dia 21 de junho de 2007, uma quinta feira, fomos ao Hospital do Rim atrás de alguém que pudesse me ajudar a fazer uma tomografia. Eu precisava descobrir por que estava tendo dores de cabeça tão frequentes e tão fortes. Encontramos o Dr. Gustavo — o mesmo médico que me socorreu em 2005. Ele fez o pedido da tomografia na hora, e eu fiz o exame imediatamente. Mas não apareceu nada.

    De vez em quando, o Dr. Gustavo dava plantão na Nefros. Foi engraçado encontrá-lo lá pela primeira vez, em 2006. Ele contou, rindo, como minha mãe o pegou pelo colarinho e o jogou na parede mandando que fosse me socorrer. Disse que estava feliz em me ver bem depois de tudo o que eu tinha passado. Um tempo depois, ele sumiu. Soube que foi encontrado morto no apartamento dele. Morte súbita. Ele era tão novo. Fiquei chocada.

    No dia 22 de junho de 2007, uma sexta-feira, antes de ir para a hemo, reclamei de muita dor de cabeça e dor abdominal. Minha mãe me deu dipirona. Fui para a clínica e reclamei que as dores continuavam. Me deram Buscopan composto. Pouco depois, como a dor de cabeça ainda persistia, aplicaram dipirona na veia – e minha pressão despencou. Passei muito mal e “dormi”. Hoje, lembrando, acredito que desmaiei. Acordei recebendo soro, sendo desligada da máquina.

    Quando estava indo embora, percebi que minha perna estava estranha. Dormente. Pesada. Eu não conseguia levantá-la direito e saí meio que arrastando. Ninguém percebeu nada.

    No dia seguinte, sábado, eu tinha uma festa no ICRIM (Instituto de Apoio à Criança e ao Adolescente com Doença Renal) na parte da manhã. Me arrumei e saí com a minha irmã. Não consegui chegar no ponto de ônibus. Minha perna estava muito ruim. Voltamos para casa e pedi para minha mãe me levar ao médico. Já suspeitávamos de derrame.

    A equipe médica que me atendeu no HSP fez alguns testes e disse que eu não tinha nada, que eu estava andando daquele jeito por causa dos meus joelhos valgos. Mesmo eu e minha mãe explicando que eu tinha joelhos valgos desde criança e nunca tive dificuldades para andar, a chefe da equipe, Dra. Fernanda, insistiu. Além da dificuldade para andar, eu já estava falando arrastado. Eu me sentia estranha, lenta, como se estivesse presa dentro de mim mesma. Mas não deram importância.

    Quando sugerimos uma tomografia, a Dra. Fernanda falou que, por causa da greve, não iria pedir — estavam priorizando os casos mais graves. (Fiquei com muita raiva dela.) Perguntamos se poderia ser derrame. Ela disse que não.

    A partir daí, minha memória ficou bagunçada. Quase tudo se apagou. O que conto agora é o que minha mãe e minha irmã me contaram.

    No domingo, meus pais me levaram à Santa Casa. Depois de horas de espera, o médico disse que eu estava sofrendo efeitos da Carbamazepina, o anticonvulsivo que eu tomava desde 2005, e suspendeu o remédio.

    Na segunda-feira, durante a hemodiálise, passei mal e convulsionei. Me amarraram na cadeira para eu não me machucar enquanto me debatia — era uma crise convulsiva generalizada. Depois parei de me debater e fiquei “fora do ar”. Era outro tipo de crise convulsiva. Fiquei assim por quase uma semana: olhos abertos, olhar perdido, consciência ausente. Eu estava ali… e ao mesmo tempo não estava.

    A médica de plantão na Nefros tinha contatos no hospital São Luiz Gonzaga e conseguiu uma vaga para eu ser transferida.

    Quando voltei da crise, estava confusa, sem forças. Quase não conseguia me mexer, não podia andar, mal conseguia falar, mal conseguia comer. Fiquei desesperada. Lembro das lágrimas escorrendo dos meus olhos, mas também lembro de sorrir abobada. Eu estava presa dentro da minha cabeça. Meu cérebro não me obedecia, mas eu tinha consciência.

    Eu tinha tido um Acidente Vascular Cerebral Isquêmico (AVCI). Um derrame. Aos 19 anos.

    Teve um dia em que as minhas primas Thaís e Thathí foram me visitar. A Thathí segurou minha mão e chorou de soluçar, dizendo que eu iria ficar boa. Ela sempre teve jeito de durona, mas é uma manteiga derretida. Eu tentava falar para ela não chorar, mas não conseguia. Era desesperador.

    Recebi alta, acho que uns dois dias depois de recobrar a consciência.