O AVCI me deixou lentificada, com hipotonia — diminuição de tônus muscular —, sem equilíbrio para andar e me manter em pé sozinha, sem conseguir falar direito, com espasmos musculares e tremores por causa de uma síndrome parkinsoniana. Também fiquei com hiperextensão dos joelhos, escoliose, DTM (Disfunção Temporomandibular). Enfim, muitas sequelas e um corpo cheio de limitações.
Eu sabia que seria muito difícil voltar ao normal. Mas eu tinha esperança. Chorava muito — quase sempre escondida. Sentia uma angústia enorme no peito, algo que me sufocava e doía de um jeito que eu não sabia explicar. Era horrível não conseguir fazer coisas simples, como me virar na cama sem ter que me puxar agarrada na cabeceira ou pedir ajuda. E, aos poucos, fui percebendo ainda mais limitações. Comecei a sentir dores fortes no corpo, principalmente nas costas e no ombro direito. Também percebi que fiquei com a sensibilidade à flor da pele. Chorava com facilidade… mas também sorria.
Sempre gostei muito de ouvir músicas e cantar (apesar de não ter nenhum talento). E o fato de não conseguir mais cantar me desesperava. Eu sempre levava meu discman e meu porta-CDs para a hemo. Um dia, tive uma crise de choro durante a sessão porque não conseguia cantar minhas músicas favoritas. Eu não conseguia parar de chorar. Chamaram até a médica.
Minha mãe me contou que muitas pessoas oraram por mim e rezaram o terço pela minha recuperação. É emocionante saber que existem pessoas solidárias à dor dos outros — e muitas delas nem me conheciam.
Minha avó Dolores, sempre preocupada comigo, não podia me ver que já vinha com um copo de água benzida para eu tomar. Ela tinha uma fé inabalável. Lembro disso sorrindo.
Eu me tornei dependente das pessoas para sair de casa e para fazer tarefas cotidianas, e eu não me conformava com isso. Era desesperador. E até hoje isso me afeta muito emocionalmente, apesar de eu já conseguir fazer muita coisa sozinha — mesmo com bastante dificuldade e precisando fazer um esforço enorme.
Quem me vê andando com apoio, lavando uma louça, cozinhando… não faz ideia do esforço que eu faço, do quanto é dolorido para mim. Mas eu faço, porque não fazer seria ser ainda mais dependente — e eu odeio isso.