2005: ANO DE PROVAÇÕES E SUPERAÇÕES

2005 era o meu último ano na escola. Eu estava estudando para o Vestibulinho e fazendo um curso de maquiagem com a minha mãe, promovido pelo Boticário no ICRIM. No mesmo ano, também participei de um programa de qualificação profissional da prefeitura, o Capacita Sampa.

Por causa da GESF, a minha função renal já estava sendo prejudicada ano após ano. Tinha dias em que a proteinúria ficava bem alta e me deixava toda inchada e com a vista embaçada. Eu não gostava nem de sair de casa, por vergonha. Percebia que comentavam e faziam piadinhas na escola, e isso me chateava, mas eu fingia que não percebia e não dava trela.

2005 foi um ano bem turbulento. Passei por vários problemas. Tive gota — causada pelo aumento de ácido úrico no sangue, que formam pequenos cristais e se depositam nas articulações, causando inflamação. Também tive um prolapso retal (quando há o extravasamento de parte do intestino e reto) e uma criptococose (pneumonia transmitida pelas fezes secas de pássaros – no meu caso, dos pombos – quando inaladas).

Cada diagnóstico parecia um lembrete cruel de que eu não tinha controle sobre nada. Eu só reagia, tentava seguir. Era como viver em estado de alerta constante.

Um dia (no final de junho), passei mal em casa e meus pais me levaram para o Hospital do Rim. A médica, pelo raio-x, diagnosticou sinusite e fui para casa. Um ou dois dias depois, piorei muito e meus pais me levaram às pressas para o Hospital do Rim. Cheguei lá com insuficiência respiratória. Fui socorrida rapidamente por um enfermeiro. O quadro de sinusite evoluiu para pneumonia (a médica só acreditou que eu tinha sido diagnosticada com sinusite depois que viu o raio-X). Fiquei uma semana na UTI. Quando fui para o quarto, tive que ficar usando cânula nasal para ficar recebendo oxigênio porque não conseguia respirar direito.

Naquele momento, eu ainda não entendia a gravidade. Só sentia medo. Medo de não conseguir respirar, medo de não voltar para casa, medo de que aquele fosse o começo de algo pior. E era.

Uma semana depois, de madrugada, passei mal no quarto. Comecei a sentir um incômodo no abdômen e falta de ar, mesmo recebendo oxigênio. Eu chorava. Minha madrinha, que tinha ido passar a noite comigo, chamou a enfermeira de plantão, mas a idiota disse que era frescura, que era pra eu dormir que passava. (Ela nem avisou o médico de plantão.) Eu não conseguia dormir por causa do incômodo. De manhã, quando minha mãe chegou, e me viu com falta de ar e inchada, foi desesperada procurar um médico. Achou o Dr. Gustavo, pegou ele pelo colarinho o encostou na parede e mandou que fosse me ver imediatamente. Quando ele chegou ao quarto, percebeu que a situação era muito grave. A partir daí, só lembro que estavam passando uma sonda vesical em mim. Apaguei.

Fui sedada e fizeram uma broncoscopia (foi assim que descobriram que a pneumonia era criptococose — infecção fúngica). Fui sedada e entubada, pois durante a broncoscopia tive uma parada cardiorrespiratória, passaram sonda no meu nariz, um cateter no meu pescoço para receber os antibióticos (tomei vários antibióticos fortes) e outro cateter na perna para eu fazer hemodiálise intermitente. Eu estava tão inchada que, onde furavam escorria água; por isso fiz hemodiálise intermitente, 24 horas direto, por uns 5, 6 dias – o tempo em que fiquei na UTI. Também suspenderam os imunossupressores para que o meu corpo reagisse mais rápido.

Meus pais avisaram minha família de Cananéia. Minha tia Bel veio com a minha bisa e os meus primos. Minha tia Bernardete também veio com minha vó Dolores (elas tinham se mudado para lá em 2002).

A Dra. Paula, que estava cuidando de mim desde que internei, disse à minha mãe que iria começar a tirar a sedação para ver se eu reagiria, pois já tinham feito tudo que podiam por mim. A Dra. Luciana e o Dr. Paulo foram me ver e conversaram com a minha mãe. Disseram para ela ir para casa e entregar nas mãos de Deus, porque não podia ser feito mais nada; qualquer coisa que acontecesse, eles telefonariam.

Quando ela chegou ao hospital no dia seguinte, a recepcionista mandou ela subir para a UTI porque a médica queria falar com ela. Minha mãe pensou que eu tinha morrido. Porém, eu tinha acordado – depois de uns quatro dias de coma – e fui logo arrancando o tubo (eu sempre fazia isso).

Quando minha mãe entrou na UTI, eu estava sentada na cama e uma enfermeira estava penteando meus cabelos, que tinham ficado embolados por causa da touca. Na época, eles eram cumpridos, lisos e metade pintados de vermelho.

Algumas horas depois que eu acordei, tive convulsões. Meus olhos ficaram virados para um lado, depois viraram para o outro e depois para cima. Eu não tinha controle. Não sabíamos que era um tipo de convulsão. Eu estava consciente e fazia força para tentar olhar para frente, em vão. Fiquei assim por muito tempo, do meio-dia (minha mãe estava me dando almoço) até de madrugada. Foi horrível! Eu não conseguia dormir e ficava perguntando o que estava acontecendo, mas ninguém dizia. Para mim, só existia aquela convulsão que a pessoa fica tremendo e perde o controle do corpo. (Eu tinha tido uma vez, no ano de 2001, antes do transplante.)

Quando me levaram para o quarto, fui com máscara de oxigênio e tive que fazer fisioterapia respiratória e motora. Umas duas semanas depois, tive alta. Porém, fui para casa com dificuldade para andar; por isso, o médico me deu um atestado de 15 dias para eu concluir minha recuperação em casa.

Enquanto estive internada, recebi muitas visitas de parentes e amigos.

Os médicos ficaram impressionados com a minha recuperação. A Dra. Paula tinha dito à minha mãe que, se eu sobrevivesse, iria direto para a hemodiálise porque meu rim não funcionaria mais. Graças a Deus isso não aconteceu — pelo menos não de imediato. Saí do Hospital com o rim funcionando e com os exames bons. Ela disse também que meus pulmões nunca mais seriam os mesmos.

Quando os médicos que cuidaram de mim e os que me conheciam me encontravam, sempre comentavam e me parabenizavam pela minha recuperação. Ficaram muito impressionados.

Depois de tudo isso que passei, meu rendimento escolar caiu. Fiquei muito chateada porque, quando voltei para a escola, eu sentia muito sono por causa da carbamazepina (anticonvulsivo), que passei a tomar para prevenir outras crises. Eu dormia nas aulas – coisa que eu nunca tinha feito. A maioria dos professores deixavam porque sabiam de tudo o que eu havia passado.

Por causa dos fortes antibióticos que tomei, algum tempo depois meus cabelos começaram a cair muito. Eu chorava. Quase fiquei careca. Minha sorte é que, desde aquela época, eu tinha muito cabelo. Precisei cortar curtinho, passar minoxidil no couro cabeludo e tomar um remédio que fortalecia cabelos e unhas – que ficaram bem fracas.

Em novembro, meus exames haviam piorado; a perda de proteína tinha aumentado muito e a função renal caiu drasticamente, não tinha mais jeito; eu voltaria para a hemodiálise.

Tempos depois, soube que, enquanto eu estava em coma, parentes de Cananéia estavam preparando as coisas para levar meu corpo para lá, se eu não sobrevivesse. Porém, muita gente se uniu em corrente de oração pela minha recuperação. Minha tia Mariazinha prometeu para Nossa Senhora Aparecida que, se eu me recuperasse, ela me levaria para a Basílica e eu assistiria a uma missa vestida com um manto azul, simbolizando o manto de Nossa Senhora. E A FÉ FAZ MILAGRES!

Eu, na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, cumprindo a promessa que a minha tia fez para me salvar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *