Ainda em 2005, fiz a inscrição no Vestibulinho para entrar na ETESP (Escola Técnica Estadual de São Paulo). Eu queria prestar para Turismo, porém não havia turma no período da manhã — o único horário que eu teria disponível, já que eu começaria a fazer hemodiálise. Entre os cursos disponíveis, escolhi Gestão Ambiental (GA). Prestei e passei.
Eu adorei o curso de GA. As pessoas que conheci lá eram completamente diferentes dos meus ex-colegas de escola. O pessoal era mais maduro, tinha uma visão diferenciada do meio ambiente, da vida e era mais compreensivo em relação à minha saúde do que a maioria dos meus ex-colegas da escola anterior. Nunca ouvi ou percebi nenhuma piadinha em relação a mim. Isso não quer dizer que eu não tivesse apoio nenhum na escola; lá eu conheci pessoas bem legais, inclusive a minha melhor amiga, a Erica, que conheci na 8ª série. Ela sempre me entendeu e me apoiou, apesar das nossas diferenças.
Quando o médico disse que eu teria que voltar a fazer hemodiálise, fiquei bem triste, apesar de já saber que isso iria acontecer. Não havia vaga na Unidade de Hemodiálise do HSP, nem no Hospital do Rim, que eram os nossos locais de preferência. Por isso, fui encaminhada para uma entrevista numa clínica mais próxima da minha casa. Gostei e decidi ficar lá mesmo. O nome da clínica era Nefros.
Voltei a fazer hemodiálise no dia 02/12/2005. Comecei no horário da manhã, de segunda, quarta e sexta, porque as aulas na escola normal já tinham acabado e o meu curso só começaria em fevereiro.
Meu curso na ETESP era das 7h30 às 12h. Quando as aulas começaram, meu horário da hemo mudou para às 15h30 até às 19h. (Na Nefros eu fazia 3h30 de hemodiálise). Do curso eu ia direto pra hemo. Quando havia vaga, me colocavam na máquina mais cedo. Era bom porque eu chegava em casa mais cedo. Mas, mesmo assim, eu pegava ônibus lotado. Muitas vezes, com dor de cabeça, ainda tinha que aturar desaforos de idosos por estar sentada (quando eu conseguia lugar) e não ceder o assento para eles, que eram “preferencial”. Muitas vezes tive que esfregar minha carteirinha na cara deles, que, mesmo vendo meu braço com curativos, minha cara de cansada, reclamavam da minha “falta de educação”.
Foi muito difícil me adaptar na Nefros. Era tudo muito diferente. Mas, aos poucos, me adaptei e criei carinho pelos funcionários e por alguns pacientes.
Tive muitos momentos bons e divertidos na Nefros, e também momentos muito ruins e tristes. Perdi alguns colegas de hemodiálise e muitas vezes passei muito mal durante as sessões de hemodiálise e, estando sozinha, sem a minha mãe – que, na casinha do HSP, estivera sempre comigo.
Algumas das pessoas por quem eu peguei muito carinho foram embora da Nefros, assim como aconteceu durante toda a minha vida. Pessoas boas entraram e saíram, deixando lembranças e saudades. Sempre lembro delas e de como eram carinhosas comigo, mesmo que hoje tenham apenas um rosto sem nome na minha memória.
Depois de um tempo, eu comecei a pegar carona com uma paciente que morava perto da minha casa, a Irismar. Ela ofereceu a carona porque eu desenvolvi anemia, provavelmente por não almoçar e ter diminuído a ingestão de carne (a intensão era parar) sem orientação da nutricionista. Passei a sair do curso e ir para casa. Tomava banho, almoçava e saía por volta das 14h30.
Resolvi prestar uma prova no CIEE para fazer um curso básico de espanhol. Me apaixonei pelo idioma quando comecei a curtir uma banda mexicana.
Passei na prova. O curso era de terça e quinta. Eu ia direto da ETESP para o CIEE, na Rua Tabapuã – Itaim Bibi (longe pra caramba da minha casa!). Eu entrava às 13h e saía às 16h30. (Se não me engano). Com isso, todos os meus dias da semana ficaram ocupados.
No curso de espanhol conheci pessoas bem legais. Lá conheci a Andréia Magalhães, uma pessoa maravilhosa que se tornou uma ótima amiga. Nos divertíamos muito juntas.
Consegui terminar o curso de espanhol. Eram só seis meses. Mas não consegui ir buscar o certificado, por causa de tudo o que me aconteceu depois.
Já pensei muitas vezes que, talvez, se eu não tivesse feito essas escolhas, ocupado tanto o meu tempo e apenas seguido com o meu tratamento, eu não teria tido outros problemas de saúde — principalmente o AVCI.
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