Depois de uns dois dias em casa, após ter tido alta do hospital São Luiz Gonzaga, travei tomando café. Simples assim: com um pedaço de pão molhado no café dentro da boca, meu corpo parou. Eu estava ali, consciente, mas meu corpo não respondia. Pelo que li depois, provavelmente foi outra convulsão ou outra isquemia. Minha mãe me levou imediatamente ao HSP. Fui internada.
Fiquei alguns dias no pronto-socorro aguardando vaga na enfermaria da neurologia. Fiz vários exames e fui examinada e estudada por muitos médicos e estudantes. Disseram que meu caso não era comum: um AVCI aos 19 anos, sem causa aparente, sem fator de risco, sem histórico familiar. Mas, no fim, não descobriram nada. Só hipóteses. Nenhuma resposta.
Pesquisando na internet, descobri que meu caso não era tão raro quanto disseram. Bebês podem ter AVC ainda na barriga da mãe, ou no parto. Existem histórias inacreditáveis e muito tristes.
Na primeira visita do chefe da neurologia, Dr. Henrique, ao meu leito, a Dra. Fernanda estava junto — a mesma que, dias antes, garantiu que eu não estava tendo um AVC. Ela ficou sem graça ao me ver. Depois que todos saíram do quarto, veio pedir desculpas. Desculpamos. Não Havia mais o que fazer. Mas confesso: por muitas vezes tive vontade de xingá-la e processá-la por negligência.
Ninguém soube dizer se eu tive uma nova isquemia ou uma crise convulsiva. Mas eu senti que fiquei ainda pior do que quando eu recebi alta do Hospital São Luiz Gonzaga.
Fiquei cerca de quinze dias internada no HSP. Enquanto eu estava lá, uma fisioterapeuta e uma fonoaudióloga me acompanhavam.
Hoje me arrependo de não ter insistido com a minha mãe para processar o Estado e a Dra. Fernanda.
Até hoje eu tenho um lapso de uns dez dias na memória. Dez dias que simplesmente não existem para mim. É desesperador tentar lembrar e não conseguir.
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