REABILITAÇÃO: O COMEÇO DA CAMINHADA

Quando eu recebi alta do Hospital São Paulo, fui encaminhada ao LESF (Lar Escola São Francisco) para acompanhamento com uma equipe de reabilitação. Passei pela fisiatra, Dra. Milena, que me direcionou para fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional (T.O) terapia em grupo e oficina de bijuteria — uma atividade que eu adorava e que ajudava a ocupar a mente. De imediato, só consegui vaga na oficina de bijuteria e na terapia em grupo. Para as outras áreas precisei aguardar. A fisioterapia foi a mais demorada: esperei cerca de um ano.

Na Nefros havia uma senhora que fazia hemodiálise no mesmo horário que eu, a Samira. Por meio de contatos, ela conseguiu uma vaga para que eu fizesse fisioterapia e terapia ocupacional na Santa Casa enquanto aguardava ser chamada pelo LESF.

Na Santa Casa, eu fazia T.O. para treinar a coordenação motora dos braços e das mãos. Na fisioterapia recebia choques nos joelhos por causa de dores e fazia exercícios para tentar ganhar força — mas a dor não me deixava progredir.

Quando finalmente me chamaram no LESF, precisei sair da Santa Casa. No LESF, a T.O. era voltada para me ajudar a me adaptar à minha nova condição. Reaprendi a arrumar a cama, lavar louça… tarefas simples do dia a dia. A terapeuta também orientou adaptações na casa. Na fono, eu fazia exercícios para fortalecer a respiração, a língua, as bochechas, os lábios e a mastigação. Treinei a intensidade da voz, a articulação das palavras e reaprendi a pronunciar sons que ficaram difíceis depois do AVC. A terapia em grupo servia para dividir angústias, medos e dúvidas. A oficina de bijuterias, além de distrair a mente, ajudava na coordenação motora. Na fisioterapia, fiz exercícios de fortalecimento muscular, alongamento e equilíbrio.

A psicóloga disse que eu estava depressiva por causa do AVC e das perdas que ele trouxe. Mas que era normal.

Era muito difícil e cansativo fazer hemodiálise três vezes por semana e reabilitação duas vezes por semana. Sem contar que o LESF ficava em Moema, longe da minha casa. Para os meus pais também era exaustivo — principalmente para o meu “paidrasto”, que me levava na maioria das vezes. Na época, ele estava afastado do trabalho por causa de uma cirurgia de hérnia de disco.

No LESF, ganhei uma bengala de quatro pés para tentar sair da cadeira de rodas. Também ganhei uma cadeira de rodas — até então eu usava uma emprestada pela igreja, que minha irmã havia conseguido. Mas eu não conseguia andar com a bengala: não tinha equilíbrio, ficava muito cansada e não tinha paciência para o ritmo dela. Também treinei com muletas canadense. Foi pior.

Muitas vezes pensei que fosse desmoronar. Era muito difícil aceitar e me adaptar à minha nova vida. Era doloroso depender das pessoas para tudo: para sair de casa, para fazer tarefas simples, para me servir as refeições, para me locomover. Eu não podia mais ir a certos lugares, porque era difícil para a minha mãe ou meu pai me levarem. Eu praticamente não me divertia, não saía de casa. Muitas vezes me sentia um fardo.


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