MINHA LUTA PARA CONTINUAR A ME RECUPERAR

Aos poucos, fui tendo alta das terapias, mesmo sem estar totalmente recuperada. Disseram que já haviam feito tudo o que podiam por mim e havia outras pessoas na fila de espera. Ouvir aquilo me atravessou. Eu estava exausta, mas sabia que precisava continuar a reabilitação. Tive alguns progressos, mas não estava pronta para receber alta; sentia que podia ter mais ganhos. Não tive nenhum apoio pós-reabilitação, apenas orientações para continuar alguns exercícios em casa.

Continuei passando com a Dra. Milena porque aguardava a chegada de um brace articulado para o joelho que, segundo ela, ajudaria a segurar a hiperextensão. Esse brace foi uma novela: demorei para encontrar e, quando encontrei, era caríssimo e precisava ser importado do Canadá. Minha psicóloga da Nefros, a Rita, fez umas três rifas para me ajudar a comprar. Demorou uns quatro meses para chegar. Voltei para a fisioterapia para treinar com ele. Usei por um tempo, depois parei. Não segurava meu joelho e ainda machucava.

Mesmo assim, não me acomodei depois da alta do LESF. Uma auxiliar de enfermagem da Nefros, a Betinha, me falou sobre o IMREA (Instituto de Medicina e Reabilitação) — Rede de Reabilitação Lucy Montoro — do HC, porque eu havia comentado que estava procurando um lugar para fazer hidroterapia. Eu tinha pesquisado e sabia que a hidro poderia me ajudar muito. Liguei e marquei uma avaliação na Unidade da Lapa. A fisiatra me encaminhou para hidroterapia, condicionamento físico e oficinas de plantas medicinais e jardinagem e bijuteria. Mas não consegui fazer essas oficinas por muito tempo, porque eram depois da hemo, e eu ficava muito cansada e, muitas vezes, já saía da hemo com dor de cabeça.

Antes de conseguir vaga no IMREA, falei com a assistente social da Nefros, que conseguiu uma avaliação para mim na AACD. Mas eu não fui, porque a chefe de lá era a Dra. Milena — a mesma que disse que eu “não era peixe para andar na água, que eu tinha que andar no chão”, quando falei sobre hidroterapia. Ela foi grossa e escrota. Aquilo me derrubou. Doeu de um jeito que eu não sei explicar; tive vontade de chorar. Naquele dia, eu quase desisti. Eu já tinha lido muito sobre hidroterapia e sabia que poderia me ajudar no equilíbrio.

Para o condicionamento físico, me chamaram rápido no IMREA. Ganhei força, e isso me trouxe algumas melhoras no dia a dia — como conseguir ficar em pé por mais tempo. Infelizmente, não conseguia fazer todas as sessões porque minha pressão subia. Parei com o condicionamento físico por causa de uma reforma que começou no local. Prevista para terminar em seis meses, levou mais de três anos — e ainda ficou coisa por fazer. Depois da reforma, as coisas mudaram. Quando voltei para o condicionamento físico, me deram só mais seis meses e depois me deram alta. Falaram para eu procurar uma academia.

Esperei cerca de um ano e meio para a hidroterapia. Quando comecei, logo senti melhora na minha respiração. Eu adorava a hidro. Era relaxante — a água quentinha parecia me abraçar — e realmente me ajudava. Mas não o bastante para eu voltar a andar.

Também fiz RPG (Reeducação Postural Global) em casa com a Sueli, uma fisioterapeuta maravilhosa, que me ajudou muito. Algumas melhoras só eu e ela percebíamos — mas, para mim, eram grandes vitórias.

Não sei exatamente quando voltei a fazer as coisas de casa. Só sei que entendi que não podia esperar estar totalmente recuperada para voltar a fazer uma das coisas que eu mais gosto: cozinhar. Por causa da lentificação, eu demoro muito para fazer a comida — tipo cinco, seis horas para fazer um almoço — e isso fica um pouco cansativo. Mas eu queria voltar a cozinhar porque me faz sentir viva.

No IMREA, eu ganhei uma cadeira de rodas nova, feita sob medida para mim, e uma órtese para a perna esquerda, mas, assim como o brace, a órtese acabou não dando certo.

Ainda tenho fé que posso me recuperar. É difícil, mas acredito que vou conseguir. Quero recuperar o meu equilíbrio para poder caminhar na praia, no parque, brincar o carnaval, trabalhar… Tenho muitos planos e preciso correr atrás com as minhas próprias pernas — literalmente. Para isso, sei que preciso ter condições financeiras para voltar a fazer fisioterapia. Um dia eu chego lá. Até lá, sigo no meu ritmo. No meu tempo. No meu corpo.



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